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segunda-feira, 23 de junho de 2025

SAGA DE MATEUS SIMÕES - DERROCADA DA BOA FÉ

Esta deliciosa história do antepassado dos Simões Pires veio contada pelo primo Flávio Stein Garcia. As famílias vão se ampliando e a história dos descendentes de Nicolau Stein acabam se encontrando com os descendentes de Mateus Simões em dois ramos. Um que ligou João Stein, filho de Nicolau, a casar com Gasparina Pires de Quadros e outro que levou netas de Nicolau a se casarem com meus tios Pires Garcia.

 

Pois olha vivente, vou contar para vocês uma história comprida que vi, ouvi e pesquisei durante este meus quase setenta anos.

Mas bueno! No início dos anos 1700, viviam na Freguesia de São Sebastião - Ilha Terceira do Arquipélago dos Açores, Um índio velho chamado Manoel Simões junto com sua mulher velha de nome Maria da Conceição. As condições econômicas no tal arquipélago vinham se tornando cada vez mais precárias, em virtude da superpopulação. Diz que a colonização do arquipélago se deu devido à abundância de madeira para a  construção de naus oceânicas e dai os portugas mandaram uns índios, diz que até uns tais de degredados para cortar a tal madeira. Mas ocorre que a madeira acabou e o povo teve de se dedicar a agricultura do trigo, feijão e outros, porem logo logo não tinha mais terra para tanta embretando a gurizada pois não tinha mais terra para tanta gente.

Dentro deste aperto nasce o filho deles um taura chamado Mateus Simões, isto em 1724. O piazote foi se criado vendo aquele aperto. Então surgiu promessas da Coroa de emigração para a as novas terras do Brasil, e ele então com 23 anos resolveu se aventurasse juntamente com a irmã Luciana para usufruir destas farturas de terras, mantimentos e perspectivas de progresso. Ora, pois! Logo Mateus que tinha o perfil empreendedor, jovem não ia apaixonasse pela possibilidade de expansão de horizontes?

Se meteu no tal navio cargueiro que vinha lotado que nem sardinha. O tal  navio cargueiro não tinha as mínimas condições para o transporte de migrantes. A viagem, que levou três meses, foi extremamente penosa. A falta de higiene tornava precária a convivência a bordo do navio. Não havia o habito do banho, e no navio não havia água disponível para este fim. Como o pessoal não mudava a roupa, o cheiro a suor e a sujeira acumulavam-se. O local onde dormiam, mesmo sendo diariamente lavado, não chegava a secar, fazendo com que a umidade aumentasse a pestilência do ar. "O transcurso era extremamente penoso. O ambiente no barco era promiscuo, os alimentos eram escassos, a higiene era deficiente, e a água apodrecia poucos dias depois de começada a viagem. A maior parte dos passageiros adoecia: febres, infecções intestinais, pneumonias, crises de fígado, escorbuto. A mortalidade era grande. Os corpos eram jogados ao mar. O escorbuto, ou mal de Luanda, era o que mais estrago gerava, provinha da carência de vitamina C, e era caracterizado por hemorragias".

Chegando à ilha de Santa Catarina, o quadro deprimente, era um contingente de farrapos humanos de jovens, mulheres e crianças. Mateus e a irmã foram inicialmente assentados na Colônia do Sacramento, hoje território uruguaio. Mal chegaram e um tal Dom Miguel Salcedo invadiu e expulsou uns quantos inclusive Mateus que teve de fugiu vindo para  em Rio Grande, sem seus haveres e pertences, tendo deixado lá sua  irmã Luciana que acabou casada e falecida naquela Colônia. 

Esta retirada da Colônia de Sacramento se deu em 1754.  Mateus, com 30 anos, foi novamente reassentado, agora na cidade de Rio Pardo, onde recebeu uma data e mantimentos para reiniciar a vida. 

Em 1757, com 33 anos, casou em Rio Grande (por procuração) com Catarina Inácia da Purificação, de 20 anos de idade, também açoriana e que conhecera em sua estada em Rio Grande. 

Com sua estada em território uruguaio e na cidade de Rio Grande, junto com o fato de o exército ter um quartel em Rio Pardo, vislumbrou a possibilidade de estabelecer comércio com esta unidade militar. Foi o que fez, trazendo estes mantimentos do Uruguai, por carretões até o Rio Grande e embarcados até Rio Pardo. 

O negócio ia prosperando até que quando tinha 41 anos, quando voltava de uma de suas viagens ao Prata, com carretas de suprimentos para sua loja em Rio Pardo teve a má sorte das forças de invasão, por ocasião da tomada da Vila de Rio Grande-(1763), lhe causado o extravio de seus transportes e mercadorias que foram assaltados e roubadas.

Logo a seguir, muito provavelmente por causa deste incidente que devem ter abalado suas finanças, empreende uma viagem à terra natal para buscar haveres relativos a uma herança, tendo sido portador, por parte de patrícios de trazer também haveres oriundos de seus parentes. De retorno da viagem aos Açores trazendo estes dinheiros quando chegava à Ilha de Santa Catarina esta estava sendo invadida e ocupada pelos espanhóis, comandados por Ceballos. Nesta ocasião foi preso, teve seu dinheiro confiscado e como muitos outros, remetido para o Prata, com destino ao Vice-Reino do Chile. Ficou muito tempo em poder cesta gente até que conseguiu, afinal, libertar-se em Montevidéu, possivelmente por suas relações como negociante de suas relações comerciais, se dirigiu a casa de sua irmã na Colônia do Sacramento que lhe providenciou cavalos e um escravo para seu regresso a Rio Pardo, onde o aguardavam angustiado, a família e seus amigos. Porem como tinha perdido cerca de 25.000 escudos, a maior parte dos outros patrícios, agravando-lhe as finanças.

Endividado lançou-se a trabalho arduamente, primeiro com o comércio de mulas para Sorocaba, ele levava a tropa, e lá ouviu da possibilidade de arranjar uma representação com importadores no Rio de Janeiro o que reforçaria seu comércio no Rio Pardo, foi o que fez junto a Antônio Luís Escovar Araújo, conseguindo de imediato devido a seus negócios com o exército e a grandes fazendeiros. Estes fornecimentos eram fazendas e molhados; aguardentes, vinhos e algum pano de linho, miudezas, gêneros do país e de Europa, como cabos, alcatrão, breu, pregos, estopas, linhos, fitas e escravos. 

Bom também não é tudo desgraça, em 1766, nasce seu filho Antônio, nove anos depois do casamento. 

Como existia carência de moeda corrente na colônia era usual o escambo por gado e afins para saldar dívidas, e com isto Mateus se viu possuidor de avultado rebanho de gado sem possuir campos isto levou Mateus em 1768, já com 44 anos, requer e ganhar a sesmaria do Capivari com três léguas de sesmaria cujas razões o um tal de conde de Rezende assim esclareceu:

[...] atendendo a representar-me Mateus Simões Pires, morador do Quartel de Rio Pardo, que vive de seu negócio de fazendas secas o qual tinha porção avultada de animais vacuns e cavalares por ter recebido em pagamento das mesmas, e por não ter onde os prender e criar e do outro lado do rio Tabaquã se acharem um rincão. O processo de seleção desse senhor guiou-se por dois critérios básicos: primeiro, a existência de um número máximo de fontes, ou seja, foi escolhido entre aqueles para os quais conseguimos reunir a maior quantidade e variedade de documentos referentes aos seus cativos. Segundo, a representatividade desse senhor quanto à definição de suas ocupações, de modo a estabelecer certa amostragem entre os maiores plantéis devoluta, nos galhos do Capivari para cuja parte faz frente com as caídas que deságuam nos ditos arroios. O suplicante é casado, e com família, tinha vinte escravos, foi prisioneiro dos espanhóis na ilha de Santa Catarina, donde perdeu vinte e cinco mil Cruzados e estive naqueles domínios bastantes anos, e hoje esta pagando o que naquele tempo perdeu, por ser a maior parte alheia, e para melhor poder acudir ao seu crédito e honra: me pedia lhe mandasse passar uma sesmaria

Quando tinha 49 anos, ano de 1773, constitui sociedade com João Pereira Fortes, nos seguintes termos: Eles, amigavelmente, tinham: 1)-Povoado uma estância chamada de "Guardinha", na qual possuíam animais vacuns e cavalares e cria de bestas muares, com casas e currais; 2)-que da mesma forma possuíam do outro lado do Rio Guaíba (sic) outra estância chamada de "N.Sra. do Rosário"... na qual também possuíam vacuns e cria de mulas; 3)-que também entre ambos possuíam mais seis escravos a saber: Manoel, Vicente, Mateus, Antonio, José e Raimundo; 4)-que da mesma forma possuíam uns campos em que cada um tinha sua casa e roças separadas, em cujo campo tinham entre ambos uma atafona... E que todos os bens expressados, disseram que de hoje em diante ficavam sócios em tudo o que se achasse dentro das ditas duas estâncias, e os escravos declarados e no campo e atafona que declararam, onde eles, sócios, tinham suas casas de vivenda e que, quanto aos  animais que neles se achavam, pertenceria a cada um, os bois de sua marca, como também casas e roças; cada um trabalharia para si com os escravos que cada um ali tivesse seus e que no mais, de hoje em diante, ficavam sendo sócios tanto em ganho como em perdas; 5)-que, outrossim, dos desfrutes de suas fazendas tinham eles feito uma tropa de mulas e potros, que ele sócio, Mateus Simões, presentemente, a ia dispor a São Paulo, a qual também entrava nesta sociedade e por conta de ambos que ia dispor a são Paulo; 6)-que outrossim, seriam sócios em todo e qualquer negócio que da cidade do Rio de Janeiro se fizesse conveniente, tanto em fazendas secas e molhadas, como de escravos que se remetesse para a dita cidade, em tudo seriam sócios, tanto em lucros como em perdas, cuja sociedade faziam pelo tempo de dez anos, que terá princípio de hoje em diante e que todo o aumento e despesas que se tivessem nas ditas estâncias e negócios já declarados, seria por conta de ambos e que nenhum pediria um ao outro remuneração de trabalho dos custeios da dita sociedade, e que quando apartassem, findo o dito tempo, partiriam tudo o que houvesse  pertencente à esta sociedade e, nestes termos, havidos e ajustados me pediram, a mim Tabelião, lhes fizesse este instrumento, nesta nota que lhes li e disseram estar a seu gosto e aceitavam e pediam às Justiças de S.M. lhes fizesse dar inteiro cumprimento..."

A estância do Capivari, com três léguas de sesmaria, estava em sua posse desde 1768, como se depreende do texto de sua carta de sesmaria.
Trata-se da estância denominada "N. Senhora do Rosário” que, como vimos, foi incluída nos bens formadores da sociedade em 1773.

Em 1780, a sociedade adquiriu a sesmaria do "Capão Grande" por compra ao tenente José da Silva Balday e também a da "Boa Vista" comprada a Santos Martins; teve ainda outra sesmaria denominada do "Piqueri".

Em 1782 Antonio Pereira Fortes, filho de João Pereira Fortes, era lindeiro com Mateus Simões Pires na sesmaria da Guardinha e teve com este uma divergência por questão de extensão de propriedade, assunto que foi dirimido pela intervenção do Governador, brigadeiro Marcelino de Figueiredo. 

Em 1783, finda a sociedade entre João Pereira Fortes e Mateus Simões, conforme previa no contrato inicial.

Registre-se que em 1784, João Pereira Fortes teve uma propriedade no Capivari, com uma e meia légua de comprimento por meia de largo, sendo seu confrontante o filho de Mateus Simões, Antonio Simões Pires então com 18 anos. (muito possivelmente ou esta era a sesmaria de São João ou se referia a que ele estivesse gerindo a sesmaria do Capivari).

Em 1790 então com 76 anos, Mateus Simões requereu sesmaria de campos, situados em Bagé, ao Sul do Rio Camaquã, tendo o Dr. José de Saldanha dado seu perfil financeiro nestes termos: "O suplicante, bem estabelecido neste quartel, tem uma estância nos galhos do Capivari que comprou outra no fundo do Rincão de São Sepé (sic), também por ajustes, uma boa chácara perto desta freguesia e grandes casas neste povo..."

Os dois campos de Mateus no Rincão de São João (ou São Sepé) eram as sesmarias da "Aroeira" e a do "Rincão das Timbaúvas", este último medindo três léguas de sesmaria, foi em 1816, transferido como sobras (!) à Inocência Umbelina de Jesus, filha de Antonio Gonçalves Borges, cunhado de Mateus Simões...

Estes novos campos que Mateus Simões requereu por título de sesmaria, foram vendidos em 1794 a Domingos Rodrigues Nunes. Supomos que Mateus já com 70 anos, com o filho Antônio com 28 anos, gerindo o Capivari tornara-se difícil sua conservação.

Em 1819 morre Mateus Simões em Rio Pardo com 95 anos e um ano depois morre sua esposa Catarina Ignácia da Purificação deixando somente dois herdeiros: Vicência Joaquina solteira e Antônio Simões Pires, que já vimos geria a Sesmaria do Capivari desde 1784. No inventário post-mortem, o casal possuía duas estâncias: Capivari e São João, além de um sítio, ambos as propriedades com partes anexas.. Nessas grandes extensões de terra, o casal dedicava se à criação de animais. Possuía 5.698 cabeças de gado, sendo 4.560 reses e bois mansos, 820 eqüinos entre cavalos, éguas, potros e redomões, 218 mulas e 100 ovelhas.

Antônio Simões Pires, (1766 +1856) casou com Maria do Carmo Violante de Vasconcelos tiveram os seguintes filhos por ordem de nascimento: Januário S. Pires; Anna Eulália de Vasconcellos; Antônio S. Pires; Rosa Violante de Vasconcellos; Joaquim S. Pires; Luciana Prudência S. Pires; Gaspar Simões Pires; Vicente de Paula S. Pires; Manoel S. Pires (1792 + 1849); Maria Esméria S. Pires  ;Agueda Francelina S. Pires; Francisca Fortunata S. Pires

Considerando que Antônio já administrava as sesmarias do Capivari e a São João,  e já estivesse com cinqüenta e um anos, e tanto Gaspar como Manoel estivesse com vinte e seis e vinte e três anos respectivamente, imagino que os tenha colocado a frente da gestão destas duas propriedades. As meninas e os outros devem ter permanecido em Rio Pardo e mesmo nas propriedades desfrutando das benesses de serem os filhos de fazendeiros, sendo abastecidas pelos irmãos. Daí a comprarem as partes deles e ficarem com o negócio foi conseqüência.

Partindo desta hipótese de que Gaspar tenha ficado com a sesmaria de São João, situada depois do Cerro Grande em direção a Encruzilhada e de Manoel ter ficado com a do Capivari, seguiremos a descendência de Manoel.

 O casal Manoel S. Pires (1792 +1849) casado c/ Rosa Agueda de Mattos tiveram os seguintes filhos: Catarina Pires Franco; Ignez Carolina (donas da Estância); Emerenciana Marcolina (donas da Estância); Umbelinda (casada com Sérgio Simões Pires); Maria Eulália (casada com Jose Rodrigues); Ana Eulália S. Pires; Antônio Manoel Simões Pires; Israel Simões Pires; Ezequiel S. Pires; Manoel Simões Pires.


Como os primeiros seis filhos eram meninas coube a Antônio Manoel assumir os negócios.


Considerando que na Estância ficaram Emerenciana Marcolina e Ignez Carolina, podemos concluir que era lá a sede da Sesmaria do Capivari, reforçando esta hipótese está o estilo construtivo da casa, como as senzalas e a posição geográfica.


Antônio Manoel Simões Pires casado com Maria Aldina de Mattos teve três filhos: Manoel Ozório Simões Pires; José Carlos S. Pires; Rosa S. Pires

Da mesma forma que a sucessão anterior Manoel Ozório por ser homem e primogênito, assumiu os negócios, tendo deixado os campos da Estância para as tias e construído a casa da Boa Fé.

Manoel Ozório Simões Pires (Vovô Maneco – Fazenda da Boa Fé) casado com Maria Aldina de Mattos – (Ela se negou a morrer, tinha um câncer de seio, para que se completasse a escrituração da fazenda, e assim deixa-se a metade para os filhos, e foram estes campos que herdamos). Tiveram os seguintes filhos: Luiz Gonzaga (marido de Alverina Garcia Pires - tia Yaya – Estância). Esta fração de campo foi herdada por morte das tias; José Maria; Ozório; Álvaro (tio Álvaro); Almerinda (esta é a vovó Doca); Antônio Manoel (Tio Antônio o reprodutor do Capivari); Dalila; Rosa Amabilia (tia Rosa); Natércia (tia Natércia); Maria Ricarda; Helena (tia Donga); Edelmira ( tia Loura); Diva; Carlinda (campos da estância); Jose Carlos; Lacerda

Vovô Maneco já na construção da casa da fazenda mostrava sua soberba e seu gosto pelo desfrute das benesses de um abastado fazendeiro. Dando vazão a seu espírito conquistador, possuía uma amante em cada canto da fazenda. 

Na administração de seus vastos domínios permitia que os agregados desfrutassem a tripa forra dos seus recursos, tendo chegado ao ponto de matarem somente novilhas para seu consumo, retirando os quartos e deixando o resto para os corvos. (eu vi no rodeio, ainda preservado, estas ossamentas).  

Junto a ele juntaram-se muitos aproveitadores como Feliciano do Passo (ou Feliciano Nota Grande) que promoviam Califórnias memoráveis, (Califórnia são reuniões de carreira com duração de uma semana). Nestas festas consumia-se carne, bebidas e outros que tais, por conta de Manoel Ozório. Também o mulherio fervilhava em torno do fazendeiro montado em seu reprodutor Batovi, com seu indefectível pala branco e seus apêros chapeados de prata e ouro.

O reprodutor Batovi foi comprado a peso de ouro do hipódromo dos Moinhos de Vento em Porto Alegre. Era tratado a pão-de-ló, e deu início às Califórnias da Boa Fé. Ocorre que a parceria visando tirar dinheiro de Manoel Ozório arranjava competições em que conseguiam todo o tipo de estratagemas para que o cavalo acabasse perdendo ou tivesse de pagar depósito.

Vovó Morena vendo este quadro, mesmo estando muito doente, com um câncer de seio, já aberto, se negava a morrer sem antes ser concluído o inventário de seu sogro Manoel Simões Pires, assim garantindo, depois de sua morte, o seu quinhão aos filhos. Foi isto que garantiu as terras herdadas por nos.

Morta à esposa que de alguma forma segurava os ímpetos do marido, este aumentou os esbanjamentos e boa vida. Netas altura já estavam incorporados ao lado dele o tio Álvaro e o tio Zeca Garcia. 

Repartida entre os herdeiros a herança de vovó Morena, ficou o vovô Maneco livre para tocar seus haveres sem a crítica dos filhos que sempre estiveram ao lado da mãe.

Com toda aquela imensidão de campos, Manoel Ozório foi convencido pelos parceiros à tira empréstimo ao Bando do Brasil, para plantações e compra de gado, que com o inventário, nesta altura estava rareando pelo mau manejo e esbanjamento. Como se pode imaginar o dinheiro foi gasto em festas e em idéias mágicas. Conseqüência, não houve dinheiro para saldar o empréstimo que foi renovado, com hipoteca da Boa Fé, e novamente não saldado. Na iminência da execução meu avô Timóteo (casado com Almerinda Pires Garcia) se dirigiu a seu sogro, prontificando-se a comprar a fazenda, saldando a dívida e deixando um avultado dinheiro para Manoel Ozório. Aí entraram as figuras de Álvaro e Zeca Garcia, que fecharam questão de que Manoel Ozório não poderia permitir que um genro fosse ficar com tudo. Apesar da insistência de Timóteo o negócio não foi feito e ato contínuo o Banco ficou com a fazenda, sem nada sobrar a Manoel Ozório, que ficou na miséria, (os a ”amigos” sumiram). Como não tinha para onde ir meu avô ofereceu uma casinha que tinha na invernada dos juncos, ali perto de casa, à sombra de um capão de eucaliptos, tendo vivido miseravelmente até sua morte solitária.

E a Boa Fé foi leiloada pelo banco e arrematada pelos Azambuja, que enfim, eram lindeiros.

Nota do Flávio : Esta é a casa da Boa Fé, onde o vô morou antes do ranchão, que fica descendo esta estrada, a uns 300 m. do ranchão até o Passo do Canto fica outros 200 m.


Esta casa era sede da sesmaria de meu bisavô, Manoel Osório Simoes Pires, que  tinha duas sesmarias.



sábado, 25 de novembro de 2017

Carta de Maria Eugênia sobre a morte de sua mãe Doralice Stein (esposa de Bartholomeu Stein)

Taquara, 17-10-937.

Querida maninha Lieta,

Abraço-te e aos primos e Titia, com grande dor e saudade; a ti o meu grandessíssimo abraço na dor que ora nos une, a dor mais acerba que já sofremos! Calculo como deves estar preocupada com nossa sorte! ... Como deves estar inconsolável com a perda de nossa muito amada Mãezinha! Consola-te, Deus não quis que a tivéssemos mais anos, roubou-n’a tão cedo! Era tão moça e parecia tão forte...

Há quase um mês, ou mais, não te escrevia, nem sei como começar esta, depois de tudo o que aconteceu! Deves saber que tia Palmyra, tio Osvaldo, tio Juca e tia Deolinda foram até lá, nossos bons tios foram incansáveis, inclusive os vizinhos e seu Zeca, esta foi mais que nosso Pai; tudo fizemos para nossa Mãezinha; faleceu dia 13 às 7 horas da noite, dia 15 saímos de lá com os queridos titios e depois de mil peripécias chegamos aqui em Taquara, onde estamos com os titios que são nossos segundos Pais! São bons, muito bons!!!

Passamos um telegrama ai para vocês, porém nada recebemos, de resposta nem o cheiro!... Nem carta recebemos mais, desde que Mãezinha adoeceu, estranhamos muito a absoluta falta de notícias daí, eis porém que a querida Ruth escreve e manda dizer que tu passaste um telegrama pedindo notícias, lá, porém, não chegou.

Claudinho foi com o tio Osvaldo, ia muito satisfeito; separamo-nos e ele parecia não sentia muita falta nossa; tio Osvaldo e tia Deolinda foram com ele. Da Flávia não recebi ainda nada, imagino como não está inconsolável, ela que é tão amorosa!... Dia 15 recebi carta dela, pedia notícias da Mãezinha, ainda não sabia do triste acontecimento que nos feriu ainda nem respondi, pretendo escrever-lhe hoje.

Bem, agora vou passar a contar a doença de nossa Mãe, pois deves estar ansiosa por saber: Mãezinha adoeceu dia 26, à noite, teve um desmaio, que durou uma meia hora, afinal depois de muito óleo canforado e café bem forte veio a si, estávamos sós, com o Francisco; mas antes disso ela tinha tido gripe e um furúnculo horrível, creio que te mandei dizer, não? No dia 27 mandei chamar o seu Zeca Garcia, ele queria mandar chamar o Dr. Gastão, mas a Mãe não quis, alegando sentir-se bem, então ela mandou o Maurício à Encruzilhada buscar remédios, depois de um ou dois dias ela pediu o médico, foram ao telefone e chamaram o Dr. Gastão que prontamente veio e foi muito atencioso; constatou ser infecção do sangue, e um caso muito grave! Dr. Gastão foi até lá diversas vezes, Ozy sempre ia junto. Durante toda a doença a casa vivia cheia de gente, era até demais, todos queriam servir; foram incansáveis, coisa mesmo difícil de contar; seu Zeca, então, nem se fala!!! Injeções e remédios era um horror! Felizmente nada faltou, teve tudo a tempo e a hora, injeções quantidades, não se achava mais lugar para fazer uma! Estava também com reumatismo no pescoço e num braço, passou dores horríveis, insuportáveis; na cabeça pareciam máquinas, tão grande era o zumbido! Ela pedia muito um Padre, por isso e mesmo por achá-la mal, mandamos chamá-lo, não podendo vir o Padre Thomas Broggi, deu ordens ao da Encruzilhada, o qual veio dia 5, às 11 horas e administrou-lhe todos os Santos Sacramentos. Mãe ficou deveras contente e melhorou consideravelmente depois dos S. Sacramentos, rezou muito, depois piorou novamente, quase não falava, tendo já antes feito todos os pedidos e recomendações. Imagina nossa aflição, eu andava nervosíssima, pois via que ela estava mal, e mesmo não m’o escondeu.

Eu fiquei encarregada do tratamento tendo Dr. Gastão deixado escrito nas caixas, pois o tratamento todo constava de injeções, óleo canforado e nem sei o que mais! A temperatura nunca baixava de 39 a 40, dia 13 tinha 41 e 8, foi a última vez que tirei, nessa tarde ela ficou com o ventre inchado, sem fala, não conhecia mais ninguém, e às 7 horas faleceu, assistiram seu último suspiro: seu Zeca, Nário, seu Olimpo, D. Lida, à mim não deixaram entrar no quarto, mas eu vi que ela ia exalar o último suspiro, e de fato!...Há tempos desde que adoeceu não se dormia mais, apenas por noite uma, duas, três ou quatro horas no máximo, pois fazia-se “quartos”. Como aquele pessoal foi atencioso e serviçal!... Indescritível!!! Seu Timóteo e família, Edegar, seu Olímpio e fam., Cid e fam., Cecília, Vicente, etc... Pessoal do seu Bibi, enfim todos foram muito atenciosos, coisa nunca vista!

Nazico voava para trazer remédio; Maurício também ajudou muito.

As despesas foram fabulosas! Bem, já estou um pouco esquecida, e mesmo cansada, ainda tenho de escrever à Flávia, por isto vou parar um pouco.

Lá em casa deixamos tudo encaixotado, quer dizer tudo que vai se trazer para aproveitar; móveis fez-se uma relação que é para vender, ficou encarregado o seu Zeca de tudo lá. Deu-se muita coisa, aquele pessoal que tanto serviu era impossível cobrar. Enfim, foi uma tristeza; principalmente a pior coisa foi que tudo foi sem resultado, pois se tivéssemos ficado com nossa Mãezinha neste mundo, não tinha sido nada, mas Deus não quis que assim se desse, privou-nos dos doces carinhos, daquela nossa tão amada Mãezinha! Mas o que nos resta é consolar-nos com o que Deus determinou, achamos tios bons e serão pessoas que nos tem auxiliado e confortado! Deus os há de abençoar e fazê-los felizes!

Mãezinha perguntava muita por ti, se tu não vinhas, etc. respondíamos que ainda não, depois de ela muito perguntar e sempre recebendo negativa, disse: “pois então não pergunto mais, por ela, que sempre foi tão querida minha!”. Na Flávia falava muito! A toda hora! Deixou um pedido pra vocês: que cuidassem de nossa educação – era a única coisa que pedia a vocês, e que se conformassem, pois ela já estava conformada! – Pediu-me muitas coisas, fez-me muitas recomendações! Não me deixava sair do quarto nem um momento, logo que eu saia já ela me chamava e perguntava onde eu estava. Bem, maninha de minh’alma, vou terminar, já chega de prosa.

Peço-te aceitares com os bons tios e priminhos nossos saudosos abraços.

Aceita querida irmã, o coração cheio de dor e saudade da tua irmã e amiga que, como tu, sente a mesma dor.

Beija-te a tua

Maria

P.S.: Lieta,

Peço-te enviares este a Flávia, imediatamente haveres lido, pois não fiz descrição exata na carta para ela.

É favor.

Beijos

Maria




Observação: Fiz a transcrição de carta de próprio punho de minha Tia Maria Eugenia que, na época, tinha apenas 16 anos. Peço notar o português correto, onde fiz poucas alterações, apenas atualizando palavras que tiveram suas grafias alteradas posteriormente. Nada mais alterei Não notei quaisquer erros relevantes de português na bela caligrafia que ela tinha e tem ainda, e que em nada se alterou.

Notem, também, a descrição adequada que ela faz, os poucos recursos médicos que havia na época e, ainda mais, considerar que o local era totalmente distante de qualquer cidade, pelo menos 40 km. E havia muito poucos carros na época e no local, acredito, nenhum.

A maturidade de minha tia em assumir e tratar minha avó e em descrever, com absoluta fidelidade o mal que a acometeu (infecção do sangue: septicemia; pergunto: poderia ser também, alguma doença de origem meningocócica ?).

Carlos Eugenio Garcia

domingo, 23 de julho de 2017

PRIMEIRAS LEMBRANÇAS DE MARIA EUGENIA DA SILVA STEIN


Maria Eugênia da Silva Stein em foto de Carlos de Paula Couto
Maria Eugênia da Silva Stein é filha de Bartholomeu e Doralice Stein e neta de Nicolau Stein
(Digitadas pela Íris Garcia Bassani)


Minhas primeiras lembranças são de Dom Pedrito: o Ford do pai sempre caindo nos valos, na beira da estrada, os guris da tia Helena e depois os ciganos roubando as gavetas de marmelada, mais tarde a Ricardinha. Dona Rosalina, Dr. Cristiano Fischer e seu filho Henrique. Comendo balas na rede com dona Rosalina, fazer cachinhos de cabelos para Ricardinha. Recordo também uma mudança, só não sei para onde, os guris a cavalo e nós em outra condução, devia ser carreta. As noites passadas no Uruguai no rancho, a venda do seu Torquato Severo. De Cruz Alta só me recordo de brincar com a Ruth. Da fineza da casa da tia Palmira. Depois Porto Alegre, vagas recordações da Sebastião Leão, Carlinhos parecia que tinha madrasta má. A chácara da tia Julieta é rica de recordações: a casa os plátanos, as folhas caíam todas, eu achava triste. As vacas, a Negucha, o pasto. Lá foi meu primeiro natal, ganhamos bonecas, eram lindas, Tila, Flávia e eu. A da Flávia chamava-se Nair e viveu muitos anos. Veio até a Boa Fé e seu aniversário era comemorado todos os anos. A Helena ganhou uma corrente de prata e uma medalha de Santa Terezinha, a Lia eu não lembro o que ganhou e nem os guris, mudança das bonecas, a da Tila esmagada com um tijolo, ela tinha vestido verde ou azul. Lá se brincava, comia, atrás um córrego para mim era um arroio grande.

Em Porto Alegre, o medo que se passava de noite, o pai e a mãe iam para o teatro ou cinema e nós ficávamos com a Donana e o seu Elísio, um casal de italianos que moravam na ilha da Pintada. Me lembro, também, do Lauro com tifo. Recordo a doença da tia Helena, sarampo, ela mal, nós também com sarampo, a Flávia e eu e ninguém nos dava bola. Trepávamos na janela e apanhávamos peras verdes e comíamos. Abafadas com acolchoados de pena e a Flávia dizia: Maria vai na cozinha e traz comida para nós, as vezes eu ia, não me lembro de alguém ter me visto. O Café Economia Doméstica bem na frente e a casa do La Costa, como eu achava linda e sonhava com uma parecida, a nossa era bem humilde.
Depois o Colégio Sevigné, longe, mas tinha uma coisa boa, a venda do seu Pires, Armazém Pires, onde comprávamos chocolate, refeição e bolos de frutas. Lembro o Silvio sempre arteiro, uma vez encheu de bombinhas uma lata, botou uma brasa e atou no rabo de um cachorro que vivia incomodando e o coitado lá se foi desesperado, mas a gurizada gostou e achou o máximo.


Recordo a doença do tio Osvaldo, o pai e a mãe foram para lá e nós ficamos com a Donana, como ele custou a ficar bom! Era pneumonia dupla e naquele tempo era passagem certa para outra vida, mas ele não foi!


Mas antes disso o batizado da Helena, toda de branco, uma roupa linda, linda com rendas e babados e sapatos de pelica e no mesmo dia o batizado da Tila e o meu. Nós de vestidinhos de seda verde com enfeites de floresinhas aplicadas e chapéu de palhinha de seda bege nós achamos lindas. Padrinhos da Helena, tio Osvaldo e tia Elsa, da Tila, Dr.Augusto Becker e D.Josefina. Meus padrinhos, Carlos de Paula Couto e Julieta Silva. Acho que no mesmo dia 5 de setembro de 1926, primeira comunhão de Juca, Silvio, Lia e Flávia, elas de vestido longo, véu e grinalda, tudo branco e eles de roupa branca, Juca de calça comprida, acho que preta e Silvio de calça curta e camisa branca. Houve festa lá na chácara. Lembro que a mãe era magrinha e tinha um ar triste. Lembro a convalescença do Lauro.
Depois a mudança para Butiá. Lembro do pai falando com a mãe que nós iríamos para Butiá, que o Dr.Fernando Schneider ia se casar com Matilde, e ele ficaria por seis meses substituindo-o. O Silvio resolveu ficar, estava no colégio e devia ser meio do ano, então ele ficou na casa do padrinho dele, Alfredo Rodrigues da Fonseca, o Juca também ficou, acho que na tia Julieta, mas nas férias o Juca foi para Butiá. O Silvio resolveu se empregar com o padrinho dele. Acho que tinha uma casa de negócios ou tipografia (Erico Peixoto Fonseca), não sei e até o nome dele esqueci.
A viagem para Butiá foi de trem, nós adoramos, veio a cabrita que dava leite para a Helena, nós gostávamos do restinho, era grosso o leite e gostoso.


Não me lembro da chegada em casa, só depois que estávamos morando, perto do seu Quincas Saraiva e da dona Mariquinhas. Ao lado moravam seu Darcy Tavares, um homem solteiro. Perto da nossa casa tinha uma pensão do seu Alcides Contes e Adelaide sua filha, era nossa amiga, mais velha que nós. Saíamos todos os meio dia com uma jarra buscar vinho tinto lá. O pai não almoçava sem vinho, nós tomávamos, mas com água e açúcar. Os pais de dona Mariquinhas moravam na fazenda nas proximidades, às vezes a mãe e ela resolviam ir lá e nos levavam a pé e tinha boi brabo no caminho, então elas abriam e fechavam as sombrinhas para fazerem os bichos dispararem e nós podíamos continuar a caminhada.


Lá perto tinha o seu Gogota e a dona Ely e dois filhos, mas com quem nós gostávamos de brincar era com o Rony, um gurizinho de cabelos em cachos loiros, mas só em imaginação, porque não me lembro de algum dia ter brincado com ele. Gostava muito das cacimbinhas, buraquinhos cheios de água no meio do campo, e adorava o cheiro do carvão queimado.


Um dia fomos com a Adelaide até o poço da mina e depois descemos até o fundo, me lembro que os mineiros nos recomendavam que não nos encostássemos nos fios que eram desencapados e mataram muitos mineiros Era uma caixa preta o tal "elevador".


Lá vi o primeiro morto, o Leandro, nosso amigo mineiro. Um dia vi uma gaiola e dentro já se sabia, um morto, mas nunca tinha visto um de perto.


Adelaide veio nos convidar para passear, nós costumávamos ir para um enorme açude e andar de "trole" e no fim derrubávamos o dito para dentro do açude, mas naquele dia o passeio foi outro; ela disse, o Leandro morreu, mas nós não queríamos acreditar, ele não podia morrer. Ela disse eu vou levar vocês lá. Numa casinha humilde em cima de quatro cadeiras de palhinha estava sendo velado o nosso grande amigo, que tristeza. Nunca pude esquecer. Chegamos em casa apavoradas: "mãe o Leandro morreu". Não, de onde vocês tiraram isto? Nós fomos lá mãe, nós vimos o Leandro morto, preto. A Adelaide nos levou. A Adelaide é louca, levar vocês lá! Naquela noite não dormimos e nunca mais esqueci aquela tristeza.


E o Darcy o pai não nos proibia de falar com ele, de longe, e não havia lá estes cuidados. O Francisco véio era um seresteiro incrível, só pensava em tocar violão. Era tudo, cozinheiro, fazia tudo, quando menos se esperava estava tudo em festa!




Tempos depois de nossa mudança ele ficou em Butiá e também os guris. Juca, no seu Serapião Pedroso e o Silvio que havia vindo de Porto Alegre, no escritório da Cooperativa Carbonífera. Francisco casou com a viúva de um mineiro, a dona Alvina, meio branca, baixinha, cabelo meio ruim, cheia de coisas, não tiveram filhos.Ela era bem mais velha que ele, nunca vi mais caprichosa!


Lá em Butiá tinha um guri que gostava de andar nos montes de lixo procurando alguma coisa, resolvi mexer sempre com ele. Quando ele aparecia eu gritava: "come mosca", o guri me atirava pedras. Então mudei o estribilho: "come mosca atira pedra e não acerta", meio cantando. Ele ficava furioso, e o meu canto era acompanhado de pequenas pedrinhas. Um dia eu mexi com ele e corri para dentro do quarto dos guris, mas a Lia e a Flávia ficaram dando cobertura, vem para dentro Maria. Eu fui, mas resolvi dar uma espiada na situação, foi quando veio pelos ares uma metade de tijolo bateu na porta e veio direto na minha cabeça e enterrou! Eu que não gostava quase de chorar, abri o berrador e fui contar para a mãe, ela mandou me levar no consultório do pai. Depois me lembro do pai na janela comigo e cada guri que passava ele perguntava: foi este? Mas não era e eu nunca mais vi o come mosca!
Lembro de um raio que caiu na frente do altar de Santa Terezinha.
Lembro muito do Ruy Pedroso era o namorado preferido das filhas do seu Florentino Gonzales, um fazendeiro rico que havia lá. Eram muito lindas as filhas dele, Aurora, Maria e Grandiosa. Gostavam de andar a cavalo, e vestiam sempre veludo, eu as achava lindas. Dividia o nosso pátio com o do seu Darcy Tavares, uma cerca de madeira. Eu gostava de subir na mesma, sentava em cima e com um ferro batia nas unhas dos pés e pensava, será que vai doer mais? E continuava a bater, ao cabo daquela festa as coitadas caiam mesmo, e aí é que doíam.


Uma ocasião a mãe ia a Porto Alegre com o pai e uma de nós, então ela disse: vai a Maria, eu fiquei ufana! Mas na hora de por os sapatos, que tristeza! Sem unhas não dava, e chorei, chorei, quem foi junto foi a Flávia.


Parar na casa da tia Julieta era o máximo, tudo fino e eu gostava. Nesta ocasião nós ficamos com a Lia, era uma moça, onze anos, já costurava e tomava conta da turma miúda. Adelaide tinha noivo, o Delíbio, uma pessoa que mudou o nosso destino. Ele era funcionário da Cooperativa Carbonífera e parava na pensão do seu Alcides, pai de Adelaide. Enquanto nos estávamos em Porto Alegre, o pai parava na pensão e daí vem o conhecimento com o Delíbio, que era do Capivari.


Contava, além das belezas do lugar, e que não tinha médico, e um dia eu me lembro o pai viajou a cavalo para o Capivari em companhia do Delíbio. Passou alguns dias na casa do seu Feliciano “Nota Grande”, um tremendo fanfarrão: a esposa dele, a Cordolina, era irmã do Delíbio, e o pai voltou entusiasmado. Era o paraíso terrestre, um lugar belíssimo, e disse para a mãe: só o que eu tenho medo é que os chupões vão devorar as crianças!


Aquilo me apavorou! A mãe ficou muito triste por causa da mudança. Ela nascida e criada em Porto Alegre, com a mãe e irmãos e o resto da família lá, naturalmente não desejava ir para outro lugar. Mas lá em Porto Alegre quando viemos para Butiá ficaram nossas coisas todas, até nossos brinquedos, livros, móveis tudo.


Eu sentia falta da roupa de formatura do pai: uma capinha verde com arminho branco, a toga, uma gravata de renda, nós gostávamos de brincar com tudo e também com os vestidos longos da mãe, e a pele de raposa com olhos e tudo, nós adorávamos, mas esta veio. Lá ficou nossa casa na Sebastião Leão, que em 1933 foi vendida.


Nunca mais nos encontramos com tudo que lá ficou, mas que a lembrança guarda. Me lembro que nós gostávamos de assustar a Helena com os olhos da raposa, ela chorava e a mãe acudia.


Chegada em Capivari, novos rumos na vida. Num dia frio e chuvoso, cinzento. Chegou em Butiá um caminhão e um homem feio, feio, era o motorista. Era o dia de nossa mudança. Viajamos, viajamos uma estrada horrível e nós com medo dos "chupões”... até que chegamos, o caminhão parou e o pai disse: é aqui! A mãe falou: tu estás brincando! Mas era ali mesmo, uma casa humilde de alvenaria, uma chácara, mato em volta. Um homem nos esperava, com vaca de leite e lenha para o fogão e tudo o mais que se precisasse.Era o seu Romeu. A casa não tinha assoalho e nem vidro nas janelas, era uma coisa horrível. Nunca havíamos morado numa casa assim e eu achei horrível. Ficamos algum tempo dentro da casa. E os chupões?


Depois fez sol e fomos indo devagar para fora. Resolvemos fazer carnaval com as bonecas. Daí a pouco apareceu um bicho preto desconhecido para nós, matamos e levamos para exame pelo pai. "Onde acharam isso, é um chupão, morde a gente!”. Aquilo era o chupão! Não, não precisava ter medo, era pequeno e fácil de matar, não morreria ninguém.
Dai para frente não tinha mais nada que atacasse a pesquisa nos arredores. Primeiro foi um poço, barreiro, e havia uma gamela e também tínhamos um bacião que foi logo transformado em caíque,começaram os primeiros banhos de sanga, porque os outros foram no arroio Capivari,Passo Novo e depois Três Pontes.


Tinha um batelão. Caíque grande feito de uma madeira só, nele nós navegávamos felizes, até que se ouvia: "êra boi"...e achando ser tropa, nos atirávamos na água e corríamos para casa encharcados.


Nesta casa moramos meio ano.


Nos mudamos para a fazenda Boa Fé, uma casa sede da fazenda, casa boa toda assoalhada, envidraçada, linda. Com mangueiras e galpões, e histórias de assombros. Tinha o quarto do seu Batista, para nós um lobisomem! Sempre de capa preta e com um filho doente, que ele maltratava. Nós nunca passávamos daquele lado, nossas artes eram nos outros três lados.


Estavam, também, na Boa Fé o Juca e o Francisco. Nas férias vieram os filhos da tia Julieta, Carlos e Adolfo, era casa alegre e movimentada. Na frente o pai fez a sala dele e logo ao lado, a farmácia.


Nossa casa vivia cheia de gente. Perto morava um casal de preto, o Chico e a Vicentina, com cinco filhos. Recordo o dia que a Vicentina veio lá em casa, mal vestida e com muito frio e fome, perguntando se tinha serviço. Ela contou que o marido era paralítico e que ela tinha cinco filhos para criar; bem, daquele dia em diante ela ficou nossa, o pai tratava o Chico, e ela lavava e fazia outros serviços lá em casa. Os filhos brincavam conosco; o sustento deles corria por conta do pai e depois da mãe até ela falecer, então a Vicentina foi para Rio Pardo com os filhos já grandes e criados. Eu os ensinei a ler e escrever e as quatro operações, eles estão por ai, bem.


Vamos as artes mais lembradas.


A Julieta, filha mais velha da Vicentina, negrinha retinta, com uns dez anos, era uma boba, fazíamos um monte de areia espetávamos uma pazinha de madeira e dizíamos:"olha Julieta, se tu quiseres conseguir algo, pensa no que tu queres e dá três suspiros com a boca aberta e os olhos fechados em cima deste monte de areia". Ela, mais que depressa, obedecia e então nós pisávamos na pá e ela ficava com a boca cheia de terra."É, tu não fizeste direito, faz de novo".


Numa ocasião, achamos uma caixa preta com uns enfeites dourados, achamos linda e resolvemos fazer um armário daquele belo achado. Instalamos o dito cujo perto de uma pedra onde nós sempre brincávamos e enchemos de guloseimas, felizes da vida com aquele belo móvel.Numa dessas o pai aparece por lá."O que é isto? De onde vocês tiraram? É um caixão de defunto". Nossa, que susto e que confusão! Jogamos tudo longe e nos metemos dentro de casa.
À noite, nos serões, o Francisco contava histórias de assombro e nós achávamos que o dono viria nos tirar a limpo por ter utilizado o seu caixão.


Como se chamava o pai durante a noite! Ele sempre atendia.
Subíamos na cerca da mangueira e atirávamos tições acessos no gado que encerravam na mangueira!


Dos ovos de curruiras, que achávamos nos buracos da madeira da cerca, nós fazíamos pães para as bonecas. Uma vez achamos uma perdiz morta e assamos, não sei se comemos, acho que não!


Andava lá pela Boa Fé, uma enorme porca do Feliciano “Nota Grande”, e o pai disse: esta porca vem de um açougue, ela gosta de comer carne, não cheguem perto dela, porque ela pode comer vocês! Uma vez eu e a Flávia estávamos brincando e ouvimos um grito da porca perto de nós e não conseguimos subir na pedra que brincávamos, então saímos correndo com a porca em nosso encalço, descemos todo o morro e na estiva, perto do Passo Novo, nos atolamos, era atolador só! Nossos sapatos lá ficaram. Saímos correndo morro acima. Na estiva a porca não passou e subimos por outro lado. Quando chegamos em casa já tinham dado por nossa falta, mas não imaginavam o que tinha acontecido. A porca foi mandada embora, e continuaram nossos brinquedos felizes.
O certo: na chegada da estiva, corria junto com a porca uma cabrita que era nossa, a Alfazema, e esta deu uma cabeçada na porca e, enquanto ela se equilibrava, nós corremos mais e mais.


Navegamos em seco com escadas deitadas no capim e os remos eram nossos braços, descíamos a lomba e subíamos com a escada nas costas, e recomeçava tudo outra vez.




Eram clientes do pai o seu Xavier e família. Uma ocasião houve umas carreiras, no potreiro, abaixo da Boa Fé, e nós fomos, a família do Xavier também. Nós tínhamos um amigo, o Nazico, ele namorava uma das filhas do Xavier, a Rosalina. Nas carreiras o DIDI, filho deles disse: "olha lá Savica (Rosalina), onde está o antipático do Nazico!". E nós pensamos vamos dar uma surra nesse guri! Mas ele não se desgrudava da mãe dele, ai eu chamei, Didi vamos brincar? Ele veio feliz da vida. “Olha, o brinquedo é assim: pula por cima deste buraco”. Quando o guri pulou pela terceira ou quarta vez eu peguei na perna dele e derrubei, a Lia sentou nas costas dele, a Flávia nas pernas e eu batia. Quando parou a surra nós dissemos: se tu contares para a tua mãe a surra vai ser dobrada! Ele nunca contou, mas nunca mais foi na Boa Fé. A mãe dele dizia: Dona Dora, não sei o que o Didi tem, ele gostava de vir aqui, agora não tem jeito de vir, quando eu falo de vir ele se esconde! Mas nós sabíamos! A nossa mãe, não!


Foi na Boa Fé que um cavalo me deu um coice, mas não acertou bem. Eu estava no cavalo com a Lia e ela resolveu dar uma chicotada em um cavalo que estava no campo e ele nos largou as duas patas.


Após algum tempo, a fazenda foi vendida e tivemos que nos mudar para um "ranchão" que havia no potreiro, enquanto o pai construía a nossa casa. A mãe já estava esperando o Cláudio, mas eu nunca vi nada. Fomos para o "ranchão" era tudo o que o nome dizia, na frente tinha uma bela amoreira e atrás um arvoredo. Como brincamos neste lugar! Ficamos mais perto da Vicentina e as negrinhas nos faziam companhia nas artes. Nesta época já sabíamos andar a cavalo e pescar, largar a linha na água, peixes, nunca!




Para Boa Fé foi o seu Ademar Azambuja, casou com dona Fábia Figueiredo Azambuja, prima dele.


Uma noite lá no ranchão, o pai veio nos acordar: "olhem, lá no quarto tem um gurizinho que os ciganos trouxeram, eles alcançaram naquela janela” (1). Nós vimos as marcas dos pés do cigano! Queríamos muito era ver o tacho em que os bebes eram feitos... Passado algum tempo, nossa casa ficou pronta e nos mudamos para lá, era perto. Logo após, foi a Vicentina, morar no nosso campo, onde ficou até o fim de nossa casa.


Uma ocasião enquanto morávamos na chácara, primeira residência, aparecia sempre por lá o Juquita, irmão do Guy, primo do Panta. Era brincalhão como só ele. Eu tinha muito medo de sarna e um dia ele inventou que o Xavier tinha sarna e que tinha sentado em todas as cadeiras lá de casa! O pai estava desencaixotando uns remédios, com o seu Arlindo Rocha, um amigo dele, e pedi: o senhor me dá esta caixa verde? Para que tu queres? Eu quero para sentar, porque o Juquita disse que o Xavier tem sarna e que sentou em todas as cadeiras. Consegui a "caixa verde", e não podia largar porque o Juquita disse que se eu largasse as gurias sentariam e elas tinham sentado nas cadeiras, ficaria tudo contaminado.
Neste meio tempo houve um baile no Xavier e nós fomos com nossos pais. O Juquita namorava a Rosalina, filha do Xavier, também foi. Deixei a caixa em casa e planejava sentar no colo da mãe, mas tinha a Tila e a Helena e pouco colo sobrou.


Mais tarde, o pai e a mãe foram dançar e nós ali caindo de sono e cansaço, eis que o pai pediu para a Refina que nos arrumasse uma cama. Ela muito gentil nos arrumou a cama dela e do Xavier para nos deitarmos! As gurias foram e eu fiquei, dizendo que não tinha sono, mas caindo aos pedaços! Ela disse para o pai que as outras já tinham ido e que eu não queria ir, o pai veio e me obrigou a deitar. Eu levantei as pernas e os braços, para o lençol não encostar em mim e berrava. Ela veio e perguntou o que eu tinha? "Eu não quero deitar nesta cama, o Juquita disse que o Xavier tem sarna!” "Não minha filha, isto é bobagem do Juquita!” Chorei, chorei e dormi na cama do Xavier! Não precisei mais andar com a caixa verde... já estava ficando de pescoço grosso.
Ano de 1929. Nossa casa. Uma casa grande, com enorme área na frente, bons quartos, quatro, grande cozinha, varanda enorme, farmácia, consultório, galpão, forno para pão e assados, arvoredo, eucaliptos, e mais importante de tudo, era a nossa casa! Janelas envidraçadas, assoalhada, forrada, limpa cheirosa, e alegre, muito alegre.
O pai nos ensinava tudo, inclusive a admirar tudo o que era belo, uma planta, uma flor, um passarinho cantando, um córrego tudo! Agradeço a Deus, tudo que nos dava. Que santa sabedoria! Nos tirou na hora certa do meio da maldade do mundo e nos transportou para o nosso "paraíso terrestre!”. Ali não tinha escola, aquela obrigação de levantar e sair, nossas aulas eram espontâneas, tudo era apreendido em casa, com ele. E que professor! Ensinava porque sabia, e não nos deixava conviver com qualquer um! Amigos não tínhamos, brincávamos com as irmãs e as negrinhas da Vicentina, que já se criaram ali conosco. Vivemos, brincamos e aprendemos de tudo no misterioso de nosso belo e maravilhoso lar. Não desejávamos mais nada, tudo nos alegrava. Nossa vida era feliz...


1 Nota do Carlos: suponho que foi quando o Tio Cláudio nasceu.

Maria Eugênia Stein

Maria Eugênia Stein